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16
jul / 21

Agridoce

por Daniel Perdomo

“O doce não seria tão doce sem o amargo”.

—Vanilla Sky

Vanilla Sky
É o filme de drama e ficção científica que conta a história do herdeiro David Aames (Tom Cruise), em remake do roteiro original dos espanhóis Alejandro Amenábar e Mateo Gil.

Na última Carta, escrevi sobre a influência positiva de se investir visando o longo prazo, demonstrando que o tempo é o principal aliado do investidor e que as turbulências de curto prazo, principalmente quando escolhemos ativos de qualidade, têm um poder limitado sobre a rentabilidade total do portfólio com o passar dos anos.

Desdobrando o assunto da Carta com alguns clientes, recebi um comentário que me motivou a escrever este documento: “Entendo que o longo prazo é muito importante, mas gostaria de acompanhar e entender os impactos das atuais questões econômicas sobre o meu portfólio...”

Interpretei que existe uma necessidade de compreender o cenário de curto prazo, que pode se estender a outros clientes e aos leitores assíduos e esporádicos das comunicações mensais que escrevo.

Então, o que devemos ter em mente para o curto prazo?

Estados Unidos

A reabertura do país devido ao avançado estágio de vacinação ocasionou forte pressão sobre os preços da maior economia do mundo, e os dados divulgados vieram até três vezes acima do esperado. Para exemplificação, as passagens aéreas subiram mais de 10% nos dois últimos meses assim como os preços de hospedagens em hotéis. Outro segmento fortemente impactado foi o de carros usados: a alta foi superior a 10% na média (devido à alta demanda e à pouca oferta).

Os números acima citados fizeram com que o FED (Banco Central Americano), através de seus membros, ponderasse a possibilidade de iniciar um ciclo de alta nas taxas básicas de juros já no início de 2023 – sendo que foi comentada, por uma ala menor, a hipótese desse início já em 2022.

Contudo, para tranquilizar o mercado, os representantes do FED reiteraram que grande parte da inflação é transitória e que os juros baixos perdurarão nos EUA por mais algum tempo. Não sendo esperada uma brusca retirada dos estímulos monetários, ao contrário do que ocorre em alguns países emergentes, como o Brasil.

Brasil

Dados recentes demonstraram forte crescimento econômico dos países em geral, com aumento da inflação, e o Brasil é um dos destaques.

O lado doce desta informação é o avanço do crescimento brasileiro, demonstrando que o nível de ociosidade da economia pode estar abaixo do consenso dos analistas do mercado e que a recuperação das quedas ocasionadas pela pandemia será mais rápida. Esse crescimento mais acelerado, com baixo nível de ociosidade da economia, gera maior inflação.

No curto prazo, o aumento generalizado do nível de preços (inflação) produz um efeito positivo nas contas públicas, devido ao aumento da arrecadação, à queda do valor real das despesas governamentais e, por conseguinte, à redução da relação da dívida/PIB, que é um importante indicador monitorado pelo mercado por demonstrar a capacidade de um país de pagar as
suas dívidas.

Em linha com o descrito acima e conforme divulgação do Banco Central, a dívida pública brasileira, após se aproximar de 90% do PIB em fevereiro deste ano, caiu para 87.8% em março, seguida de outra queda em abril para 85.6%, apresentando uma nova redução, em maio, para 84.5% do PIB.

E, neste momento, vem o lado acre da história.

Sabemos que inflação, prospectivamente acima da meta, gera reação do Banco Central, aumentando as taxas de juros básicas da economia. Assim, essa diminuição da relação dívida/PIB não seria sustentável ao longo do tempo: a alta da Selic aumentará o custo da dívida e o crescimento real do PIB tende a desacelerar.

Por isso, o boletim Focus indica crescimento de 5.05%  no PIB para 2021 e 2.25% para 2022, tendo em vista a dinâmica citada com alta das taxas de juros dos atuais 4.25% a.a. para 6.5% a.a. ao final de 2021.

E para crescermos mais? Necessitaríamos aprovar reformas estruturantes com qualidade, já citadas em outras Cartas.

Juros 

A esta altura já foi possível notar que o tema de curto prazo para as economias é a taxa de juros e a possibilidade (ou, em vários locais, a realidade) de aumento por parte dos bancos centrais.

Por quê?

Porque, em resumo, os investidores que não possuem portfólios preparados para essa realidade perceberão marcações negativas em suas rentabilidades.

Como?

O primeiro ponto é que a economia real (produção de bens e serviços) e o mercado financeiro são extremamente afetados pelas taxas de juros. Investir, em qualquer esfera econômica, se resume em disponibilizar recursos na data de hoje para obter maior volume em uma data futura. E quanto vale esse futuro, no presente?

O valor presente do futuro projetado varia inversamente com os níveis das taxas de juros. Em outras palavras, quando os juros sobem o valor presente de um real no futuro diminui.

Simplificando: se estamos alocados em alguns ativos, com o aumento das taxas de juros esses ativos terão um valor presente menor. Ou seja, sofrerão marcação negativas em seus preços.

Outro motivo é o impacto do aumento das taxas sobre a percepção dos investidores em relação aos preços de todos os ativos. O racional comum é de que, por exemplo, a atratividade das ações é parcialmente uma função dos preços da renda fixa.

Se a renda fixa passar a remunerar consistentemente mais, as ações se demonstrarão menos atrativas aos preços atuais e, assim, devem perceber quedas nos preços para que os retornos futuros sejam, novamente, competitivos com os da renda fixa.

Não podemos deixar de considerar o efeito psicológico global de aversão a risco ocasionado pelo aumento das taxas de juros (devido à inflação persistente, e não devido ao crescimento econômico). Principalmente dos Estados Unidos.

E se a inflação não for persistente e os juros se mantiverem baixos (nos EUA) ou moderados (no Brasil) por um período mais longo do que o esperado?

A música continuará a tocar e a festa das bolsas continuará.

Para portfólios bem construídos, equilibrados e de acordo com o perfil do investidor, nem mesmo as amarguras de curto prazo são suficientes para ocasionar algum tipo de desconforto. O longo prazo é doce, e o doce não seria tão doce sem o amargo. ­­­­­­­­

16/07/2021
Agridoce
Por Daniel Perdomo

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