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02
dez / 20

Céu de brigadeiro

por Daniel Perdomo

O tema central deste mês será a repressão financeira, já que o principal objetivo da nossa Carta Mensal é contextualizar o momento econômico para que a tomada de decisão seja assertiva e para que tenhamos uma alocação de ativos eficiente em cada perfil de investidor. Todavia, é importante iniciarmos ressaltando o comportamento dos ativos no mês de novembro: foi, definitivamente, um novembro de céu azul para os investimentos.

A vitória de Joe Biden e a possibilidade da disponibilização de vacinas já no início do próximo ano (com eficácia acima de 90%) alimentou o bom humor das economias desenvolvidas, aumentando o apetite para o risco, já que uma ampla recuperação das economias é cada vez mais factível. Nem mesmo a segunda onda de Covid-19 na Europa, o alto endividamento do Brasil e o risco fiscal foram suficientes para conter a entrada de dólares na bolsa de valores nacional, com um saldo positivo de R$ 31,462 bilhões.

Esse influxo de capital na bolsa brasileira foi alocado, principalmente, em ações líquidas da chamada “economia real”, que abrange setores diferentes daqueles que se beneficiaram das restrições de liberdade, como as ações de tecnologia, e que vinham atraindo o interesse dos investidores durante a maior parte do período de distanciamento social. Em novembro, ações como Vale, Petrobrás e bancos foram as grandes beneficiadas pelo fluxo positivo de moeda estrangeira.Assim, tivemos os seguintes comportamentos dos principais índices e ativos:

Ibovespa

+15.90%

Índice de Small caps

+16.67%

Índice de dividendos

+14.40%

Nasdaq

+11.80%

S&P 500

+10.76%

Inflação (IPCA)

+0.81%

Índice de fundos imobiliários (IFIX)

+1.52%

Índice de pré-fixados (IRFM)

+0.44%

CDI

+0.15%

Poupança

+0.12%

Dólar comercial

-7.63%

Ouro

-12.32%

Como demonstrado, novembro foi especial para os países emergentes. No Brasil, poderíamos ter maior consistência e constância do fluxo de investimentos internacionais se sinalizássemos, com alto grau de confiança, que reformas (administrativa e tributária) e políticas para aumento da produtividade poderão ser aprovadas em um curto espaço de tempo. Apesar da torcida, não é grande a probabilidade que isso aconteça, em especial tendo em vista a disputa pela reeleição dos presidentes Câmara e do Senado (que deve comandar as pautas) e o recesso parlamentar (que deve adiar para o ano que vem as discussões sobre outros temas de maior relevância).

Repressão financeira

Parte do conceito de repressão financeira, para os fins que aqui propomos, pode ser interpretado como a manutenção, por parte dos formuladores da política monetária, das taxas básicas de juros abaixo do nível de equilíbrio do mercado. Concedendo os devidos créditos, John Gurley e Edward Shaw, nos anos 60, foram os primeiros a desenvolverem esse conceito, que seria expandido pelos estudos do economista da Universidade de Stanford, Ronald McKinnon, em 1973. A partir da crise de 2008, o termo ganhou popularidade devido à publicação do livro “Desta vez é diferente - Oito séculos de loucura financeira”, de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, leitura a qual recomendo.

Sem mais delongas, Reinhart e Rogoff dissertam que, em um mundo no qual as nações estão extremamente endividadas (exatamente a realidade que vivemos), existem algumas poucas formas de os formuladores de políticas monetárias e fiscais administrarem o super endividamento.

A primeira, mais extrema, seria o calote (não pagamento dos juros e da dívida). E, por questões óbvias, os países não a consideram com frequência, já que ela retira toda e qualquer credibilidade de uma economia – embora os países emergentes flertem com essa possibilidade mais corriqueiramente.

Outra forma seria a inflação extremamente alta. Como brasileiros, sabemos que essa medida possui um custo social e político muito alto.

Dentre as opções mais plausíveis, teríamos o consistente crescimento econômico, que necessitaria de um choque de produtividade relevante, como uma grande revolução tecnológica (algo distante no Brasil); e a austeridade fiscal, também difícil de ser implementada, no momento, devido às demandas sociais ocasionadas pela pandemia (como o auxílio governamental) e, historicamente, devido ao perfil perdulário da classe política.

Por fim, existe a possibilidade da repressão financeira, que como dito acima consiste na manutenção, por parte dos formuladores da política monetária, das taxas básicas de juros abaixo do nível de equilíbrio do mercado, unida com inflação moderada, normalmente acima das taxas básicas de juros (SELIC para o caso brasileiro).

Austeridade Fiscal
medidas políticas, econômicas e fiscais adotadas pelo Poder Público para equilibrar a balança entre gastos públicos e arrecadação (redução de déficit fiscal), em especial voltadas para a redução de gastos e investimentos diretos do governo na atividade econômica.

Como é possível perceber, essa última opção é a mais fácil de ser implementada, e penaliza um grupo relativamente mais “favorecido” do estrato social: os poupadores. Com a repressão financeira, haverá uma redução do custo da dívida pública através de taxas nominais baixas e taxas de juros reais negativas (taxa nominal diminuída da inflação moderada), que atuarão reduzindo a relação dívida/PIB, resumindo-se em um imposto velado destinado a quem poupa.

Assim, os autores Reinhart e Rogoff demonstram que essa taxa real negativa é uma forma de transferir riqueza de quem é superavitário para quem é endividado. Em resumo, conforme o próprio Banco Central ressaltou em seu Forward Guidance, viveremos um período em que a renda fixa de alta liquidez e baixíssimo risco não corrigirá os investimentos pela inflação.

Forward Guidance
sinalizações feitas pelo Banco Central sobre as próximas medidas de política monetária que poderão vir a ser tomadas. Indica as intenções do BACEN para o futuro, em especial quanto ao nível da taxa SELIC, no intuito de influenciar as decisões dos agentes econômicos e evitar que sejam surpreendidos.

As empresas endividadas também são favorecidas por esse modelo de juros reais negativos, já que existe transferência de riqueza dos detentores de suas dívidas para os seus acionistas como consequência de o benchmark de grande parte da dívida ser a SELIC.Portanto, trazendo para nossa realidade de investimentos, os beneficiários deste contexto são os acionistas e, por isso (além de outros fatores, como as grandes injeções de liquidez na economia), vimos a recuperação de alguns setores e ativos na bolsa de valores. O maior prejudicado é o investidor da renda fixa de alta liquidez e baixo risco.

Após as explanações acima, o natural é nos questionarmos como atuar dentro desse cenário. E, trazendo para o nosso contexto, parafraseando Mark Zuckerberg, é possível afirmar que

o grande risco é não tomar nenhum risco. Em um mundo que está mudando muito rápido, a única estratégia que é garantia de falha é não tomar riscos.”

Quando citamos “tomar riscos”, não se trata de alocar todo o patrimônio em investimentos voláteis e muito menos aumentar posições em ativos que poderão ocasionar perdas irreparáveis. A ideia é buscar o equilíbrio do portfólio, para não vermos nosso capital corroído pela inflação e muito menos dilapidado pelo excesso de risco de ativos de alta volatilidade e sem qualidade, ou seja, que não ofereçam um retorno compatível.Buscar maior rentabilidade e maior diversificação do portfólio é necessário, mas a cautela na escolha dos ativos terá que ser maior que a ansiedade de buscar o maior excedente imaginável sobre o capital investido. E acredite, esse equilíbrio é possível.

02/12/2020
Céu de brigadeiro
Por Daniel Perdomo

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