O ano se encerrou e, como somos influenciados pelos diferentes ciclos presentes em nossas vidas, renovamos a nossa esperança e as nossas expectativas para este ano que se inicia. Por tudo que passamos em 2020, é natural que tenhamos um olhar mais otimista para 2021 – e o mês de dezembro, pelo menos para o mercado financeiro, contribuiu para a propagação do sentimento positivo. O último mês do ano foi um mar calmo para marinheiros exaustos ou um oásis para viajantes cansados.
No cenário internacional, tivemos: aprovações de vacinas e início da imunização em diversos países, aprovação e confirmação do pacote de estímulos americano (pelo ainda presidente Donald Trump) que injetará mais de US$ 900 bilhões na maior economia do mundo, rejeição dos recursos que alegavam fraudes nas eleições estadunidenses, continuidade da política de juros baixos por parte do Federal Reserve e a consumação do Brexit.
Brexit
designa o processo de saída do Reino Unido da União Europeia, iniciado em 2017.
Na perspectiva nacional, o Congresso aprovou a LDO evitando a suspensão dos serviços públicos, e o tão falado teto de gastos foi mantido mesmo com toda a pressão de parte da nossa perdulária classe política.
Assim, tivemos os seguintes comportamentos dos principais índices e ativos:
LDO
Lei de Diretrizes Orçamentárias, que estabelece as orientações para a confecção da Lei Orçamentária Anual (LOA), que dispõe sobre as despesas do governo federal (gastos com pessoal e política fiscal, por exemplo).
Comportamentos dos principais índices e ativos |
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| Dez | 2020 | |
|---|---|---|
| Ibovespa | + 9.30% | + 2.92% |
| Índice de Small Caps | + 7.52% | - 0.65% |
| Índice de Dividendos | + 8.94% | - 1.00% |
| Nasdaq | + 5.65% | + 43.64% |
| S&P 500 | + 3.71% | + 16.26% |
| Inflação (IPCA-15) | + 1.06% | + 4.23% |
| Índice de fundos imobiliários (IFIX) | + 2.19% | - 10.24% |
| CDI | + 0.16% | + 2.75% |
| Poupança | + 0.12% | + 1.92% |
| Dólar comercial | - 2.53% | + 29.35% |
| Ouro | + 4.46% | + 55.93% |
Sem querer ser repetitivo em relação à última Carta, é importante que o Brasil sinalize que as reformas (administrativa e tributária) podem ser aprovadas em um curto espaço de tempo para que ocorra a continuidade deste movimento e para que aproveitemos o cenário externo mais benigno.
Continuamos a acreditar nos pilares conhecimento, diversificação e longo-prazo e a nos abster de fazer previsões macroeconômicas anuais buscando acertar, por exemplo, o valor do dólar, o preço exato do barril de petróleo e qual será o número perfeito da inflação ao final do ano. Estatisticamente, essas previsões estarão mais incorretas do que corretas. Fazendo um exercício mental, se os investidores seguirem o consenso de mercado, absorverem as informações de modo semelhante e, assim, concluírem por utilizarem a mesma estratégia de investimentos, os resultados serão idênticos à média de mercado. Não ocorrerá a geração de resultados excedentes sobre um índice de referência, o chamado alfa.
Deste modo, preferimos dispender tempo e energia:
Quando reconhecemos a ausência de informações necessárias e, assim, deixamos de tentar fazer previsões exatas, nos atemos à premissa de lidar com a realidade dos fatos, com as tendências, com os riscos prospectivos – e não com o cenário que gostaríamos que existisse. Desta forma, acreditamos ser possível aumentar a probabilidade de obtermos retornos consistentes.
Se podemos ter alguma certeza na vida, é de que ela é feita de ciclos. No mercado financeiro não seria diferente, e o principal direcionador dos ciclos de valorização ou desvalorização dos ativos (principalmente os de maior volatilidade associada) são as emoções ou os vieses comportamentais que possuímos.
endo em vista a figura acima, inferimos que os momentos de maior euforia no mercado são aqueles de maior risco para o investidor, já que a probabilidade de se pagar valores inflacionados pelos ativos é muito alta.
O inverso também é verdadeiro: bons ativos estarão a preços justos (ou até com descontos) nos momentos em que a média dos investidores está em desesperança, demonstrando um retorno potencial de médio prazo acima da média do mercado.
Trazendo para o nosso cenário, ao considerar o comportamento de vários investidores e o próprio comportamento do mercado, vemos uma grande probabilidade de estarmos na fase de entusiasmo rumo à empolgação. Para chegarmos à fase de euforia, o coronavírus terá que ser dissipado e as reformas citadas terão que ser endereçadas. Ocorrendo o inverso, o momento atual já estaria próximo da euforia, levando a crer que o potencial retorno de alguns ativos de maior volatilidade já não teria uma assimetria fortemente positiva.
Citando Howard Marks, em tradução livre:
Howard Marks
é cofundador e copresidente da Oaktree Capital Management, maior gestora de títulos de dívida high risk do mundo
“...as probabilidades mudam conforme nossa posição no ciclo muda. Se não mudarmos nossa postura de investimento conforme essas mudanças, estaremos sendo passivos em relação aos ciclos; em outras palavras, estaremos ignorando a chance de inclinar as chances a nosso favor. Mas se aplicarmos algum insight sobre os ciclos, podemos aumentar as apostas e colocá-los em investimentos mais agressivos quando as chances estão a nosso favor, e podemos tirar o dinheiro da mesa e aumentar nossa defesa quando as chances estão contra nós”.
-Howard Marks