Após a eclosão da pandemia e, por conseguinte, da crise econômica, os Bancos Centrais agiram para conter os efeitos colaterais gerados pela grande incerteza que estacionou sobre os mercados e pela forte queda da demanda por produtos e serviços devido às políticas de distanciamento social.
Em resumo, a atuação foi pautada por distribuição de auxílios emergenciais diretos à população (distribuição de dinheiro), linhas de crédito específicas para empresas e redução das taxas básicas de juros, medidas que aumentaram, fortemente, a liquidez das economias.
Esse esforço coordenado inundou o mercado com trilhões de dólares que, em um primeiro momento, ficaram sem destinação, já que as pessoas estavam isoladas e sem a possibilidade de consumirem como usualmente faziam. Assim, uma boa fatia dessa injeção maciça de liquidez migrou para as bolsas de valores ao redor do mundo, propiciando a acelerada recuperação das ações, com proeminência para o mercado americano.
Quando o mês de agosto se encerrou, as ações das empresas americanas, aparentemente, detinham força para subirem ainda mais, já que o Federal Reserve anunciou que manteria as taxas de juros baixas por período prolongado (o que aumenta a expectativa de liquidez no longo prazo e diminui a atratividade da renda fixa), sinalizando que os investidores poderiam seguir confiantes na compra dos ativos. Assim, nos primeiros dias de setembro tivemos forte alta das ações americanas, suscitando entre os analistas a criação e o provável estouro de uma bolha.
Sendo uma bolha ou não, o fato é que temos um mercado desequilibrado pelo volume de liquidez disponível (excesso de volatilidade) e os investidores iniciaram um processo de realização de lucros e correção de expectativas, vendendo parte das ações com a mesma velocidade que as compraram. Nesse sentido, o S&P caiu -3.92%, o Dow Jones -2.28% e o índice Nasdaq -5.16%, ao meu ver um movimento saudável para o mercado.
E para outubro? Um novo pacote de estímulos, de aproximadamente US$ 1.5 trilhões, está para ser aprovado, podendo gerar mais liquidez para o mercado americano, maior otimismo (alta das ações) e, junto com a proximidade das eleições estadunidenses (e a possível judicialização dos resultados), maior volatilidade prospectiva com assimetria negativa.
O Brasil apresentou uma piora substancial na rentabilidade dos ativos, em relação ao mês de agosto. O Ibovespa fechou em queda de -4.80%, e o real é a moeda de países emergentes que mais se depreciou frente ao dólar americano, fechando o mês cotadada a R$ 5,64.
Os juros futuros de diferentes vencimentos fecharam em alta, com os investidores demandando maiores remunerações para rolarem a dívida do governo federal. Por exemplo, o Tesouro Nacional já oferece títulos com vencimento em 2023 e 2026 (01/10/2020) remunerando respectivamente 4.80% a.a. e 7.35% a.a.:
Com vencimento em 2026, alguns bancos já dispõem para investidor CDBs com rentabilidade acima de 9.50% a.a.
Adicionando um componente para demonstrar o grau de incerteza e de desequilíbrio da economia brasileira, o Tesouro Selic (considerado o ativo de menor risco da economia nacional) com vencimento em 2025 fechou o mês em queda de – 0.46%. Explicando, a marcação negativa do título Tesouro Selic possui o mesmo racional da alta dos juros futuros. Com a crescente preocupação do mercado financeiro com a capacidade do Tesouro Nacional de rolar a dívida pública, e tendo em vista a possibilidade de o teto de gastos não ser respeitado, o governo teve que oferecer maior rentabilidade para atrair os investidores (principalmente os institucionais), desvalorizando os ativos (Tesouro Selic) através da marcação a mercado.
Terei que ser um pouco repetitivo em relação a carta anterior, já que o mês de setembro foi uma continuação da deterioração fiscal do país e consolidação dos riscos demonstrados em agosto, como (i) a prorrogação do auxílio emergencial, (ii) o programa Renda Brasil (Renda Cidadã) e as fontes de financiamento a serem utilizadas (FUNDEB e precatórios), (iii) o ímpeto perdulário do poder Executivo e Legislativo visando à reeleição, (iv) desonerações, (v) equipes do poder executivo brigando por maiores fatias do orçamento e (vi) letargia na discussão para aprovação das reformas (administrativa e tributária).
Os fatores consolidados aumentaram o desequilíbrio futuro do orçamento público e ampliaram, nos agentes econômicos brasileiros e estrangeiros, o sentimento de que investir no Brasil está ainda mais complicado. Como nas outras cartas, ressalto que investir não é simples e é importante estudar muito sobre todas as classes de ativos e os prováveis comportamentos dentro de diferentes cenários.
O conceito modernidade líquida foi cunhado e apresentado, em livro homônimo, pelo sociólogo, filósofo e professor polonês Zygmunt Bauman. Para o interesse desta comunicação, não aprofundarei, filosoficamente, todos os conceitos desenvolvidos por Bauman e muito menos julgarei as crenças pessoais do escritor. Utilizarei das considerações que fez sobre o comportamento humano para alusões e analogias com a economia e o mercado de investimentos.
Zygmunt Bauman
Para Bauman, a modernidade líquida é a convicção de que a mudança é a única coisa permanente e a incerteza é a única certeza em nossa sociedade. Nossas mentes são alimentadas por transformações repentinas e estímulos constantemente renovados e, desta forma, não sabemos mais como lidar com aquilo que dura, que demanda tempo para maturação. As relações sociais e econômicas são frágeis, maleáveis e fugazes, como os líquidos.
Nesse sentido, a modernidade líquida é ágil, acompanha a moda e o pensamento da época.
Diante do exposto, não é difícil identificar que o mercado financeiro está inundado de investidores líquidos que absortos pelos estímulos ininterruptos (possibilidade de ganhos fáceis em curto espaço de tempo) gerados pelo mercado financeiro, em especial o mercado de ações, tomam decisões ao poder do momentum, pautadas por argumentos frágeis e indicações sem fundamentos de pessoas apenas em busca de aumentar o número de conexões e likes, sem nenhuma preocupação com a preservação do capital daqueles que os seguem.
Com intuito de diminuir eventuais danos aos portfólios, colaborar com a construção sustentável do patrimônio a longo prazo do investidor e contrapor a nova cultura, alavancada pela internet, redes sociais e juros baixos elencarei, a seguir, algumas premissas que procuro atender (maioria delas) ao me tornar sócio de algumas empresas através da compra de ações na bolsa de valores, além dos tradicionais indicadores contábeis:
Assim, de acordo com as premissas acima, acredito que não devemos ser investidores líquidos, mas investirmos emempresas líquidasdentro do conceito de adaptabilidade, com cultura organizacional voltada para a inovação, constante geração de valor para os clientes e ágeis na tomada de decisão, mas que possuam fundamentos corporativos SÓLIDOS.
Digitização
processo de transformação de um produto, serviço ou negócio em um processo digital.