De rituais ancestrais a horóscopos, de profissionais do mercado financeiro a meteorologistas, os seres humanos possuem histórica adoração em tentar prever o futuro. Essa reverência à futurologia pode ser proveniente da constante necessidade de estarmos no controle das situações.
Nos primórdios da humanidade, os instintos preditivos eram utilizados como tentativa de controlar o ambiente visando à sobrevivência do grupo. Para isso, a nossa amígdala cerebral enviava constantes sinais de alerta contra possíveis obstáculos inesperados, sendo a estrutura responsável por detectar e gerar emoções (como o medo), reconhecer o perigo e coordenar nossas respostas às ameaças. Eram sensações de vida ou morte que por muitas vezes não se concretizavam da forma prevista e que geravam um intenso desgaste físico e emocional.
Era possível que uma simples corrente de vento gerasse um grande sinal de alerta, enquanto a chegada de uma alcateia de hienas (que de fato seria um grande perigo) não fosse sequer notada.
Atualmente não vivemos mais em grupos primitivos, apesar de percebermos comportamentos característicos desta época em nossa sociedade, e não necessitamos que a amígdala cerebral trabalhe da forma citada, em alerta máximo e provocando reações humanas acima da necessidade da nossa conjuntura social. Contudo, a nossa necessidade de controlar se mantém e, com a evolução dos códigos sociais, houve a diminuição do comportamento impulsivo e a gradativa inserção de arcabouços teóricos e técnicos, supostamente racionais, que explicariam (i) a alta probabilidade de que determinada situação ocorra e (ii) a nossa urgência de nos prepararmos antecipadamente.
Trazendo para o nosso contexto, em todo final de ano recebemos as mesmas perguntas:
Como a bolsa encerrará o ano que vem?
Qual o valor para o dólar no ano que vem?
Qual será o valor da Selic em 2024?
E a resposta é sempre parecida, algo como: “não é possível definir em números exatos”.
Assim como os sistemas primitivos de previsão, os modelos atuais também são falhos. Eles supervalorizam os efeitos imediatos de determinados acontecimentos sobre as variáveis conhecidas e negligenciam os efeitos adjacentes, já que as consequências de um ato possuem outras consequências, as consequências das consequências possuem ainda outras consequências... e assim por diante.
Não podemos deixar de citar a probabilidade estatística de ocorrerem eventos totalmente inesperados que, de tão raros, ocasionam consequências imensuráveis como Nassim Taleb tão bem retratou em seus livros, notadamente o Cisne Negro.
Nassim Nicholas Taleb
escritor e pesquisador libanês, autor de livros relacionados à teoria da decisão, probabilidade e cálculo de riscos. Dentre eles, “Antifrágil: Coisas que se Beneficiam com o Caos” (2012) e “A Lógica do Cisne Negro”, (2007).
A analogia do Cisne Negro de Taleb é realizada com a descoberta tardia, pelos europeus, da existência de cisnes de cor diferente do branco. O paralelo é traçado com eventos incertos, imprevisíveis, inesperados e que trazem consequências relevantes – sejam elas positivas ou negativas – como o ataque às Torres Gêmeas, o surgimento da internet, a pandemia de COVID-19...
Nassim Taleb argumenta que os Cisnes Negros na história são sempre acompanhados de tentativas de explicação racional de suas origens, na intenção de demonstrar que esses eventos imprevisíveis eram, em alguma medida, previsíveis. Se é ou não é possível prever esses acontecimentos, o fato é que os Cisnes Negros estão além das expectativas racionais e razoáveis, tendo em vista a história e as evidências científicas.
E como buscamos respostas para os investidores?
Praticando o pensamento de segundo nível. E para entendê-lo é importante conceituar os modelos de pensamento crítico segundo Howard Marks:
Howard Stanley Marks
investidor e escritor americano, é cofundador e copresidente da Oaktree Capital Management, a maior gestora de títulos high yield do mundo.
Exemplo: Com o COVID-19 não teremos inflação por um longo tempo já que as pessoas estão confinadas e não demandarão bens e serviços, derrubando os preços.
Diferentemente, o pensamento de segundo nível é mais profundo e mais complexo. Vários fatores são levados em consideração. Citando o autor, em tradução livre:
Para refletirmos:
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FONTE: BCB.GOV.BR/CONTENT/FOCUS/FOCUS/R20201231.PDF[/caption]
Qual teria sido o resultado desse pensamento?
[caption id="attachment_331" align="alignnone" width="1024"]
FONTE: BCB.GOV.BR/CONTENT/FOCUS/FOCUS/R20211224.PDF[/caption]
A Selic encerrou 2021 em 9,25% a.a. e o próprio Focus - que havia previsto a Selic em 4,5% a.a. para o encerramento de 2022 - ajustou a expectativa para 11,25% a.a. para o final do ano que vem. Portanto, os investidores que tomaram a decisão unicamente com base no relatório Focus no final do ano passado não tiveram ganhos substanciais e, a depender da estrutura de investimentos escolhida, incorreram em prejuízos.
Para efeitos ilustrativos, como pensamos o cenário prospectivo ainda em 2020? Resumidamente, e traçando um paralelo com o pensamento de segundo nível de Marks, analisamos o Relatório Focus da seguinte maneira:
Como as expectativas são ajustadas semanalmente, o Relatório não deve ser considerado um bom instrumento a ser utilizado para alocações de médio e longo prazo. Consideramos adequado apenas para verificarmos a rapidez e a intensidade de ajuste das expectativas do mercado, no curto prazo.
Em 2020, como a Selic estava nas mínimas históricas e houve forte implementação de políticas inflacionárias nas economias globais, somados a choques de oferta devido aos gargalos nas cadeias de suprimentos (inclusive no Brasil), acreditávamos que a Selic superaria fortemente o consenso do mercado (boletim Focus) para coibir a possível espiral inflacionária. Outro ponto: 2022 é ano de eleições, o que geraria ainda maior instabilidade nos juros prospectivos.
A Selic teria que ultrapassar a taxa de juros neutra real do Brasil em espaço mais curto de tempo. O Banco Central trabalha a taxa de juros neutra em 3% acima da inflação. Logo, como acreditávamos em uma inflação acima do teto da meta do BC de 5,25% para 2021, a Selic poderia alcançar 9,0% a.a.
Matematicamente, é difícil de precisar. Contudo, pelos fatores citados acima, a probabilidade de a Selic subir era muito alta – e a assimetria seria fortemente positiva neste caso.
De acordo com o último Relatório Focus do ano de 2020, esperava-se a Selic em 4,5% a.a. ao final de 2022.
Por termos estudado relações de causa e feito, provavelmente, diferentes das variáveis contempladas nos modelos básicos dos economistas que integram o Relatório Focus, e imaginado consequências que podem não ter sido precificadas nas expectativas, nossa visão era de uma Selic consideravelmente superior ao consenso.
Alta tímida: o consenso esperava uma leve alta na Selic (tendo em vista o baixo patamar), provavelmente por não esperar uma inflação persistente e acima do regime de metas de inflação do Banco Central. Acreditávamos que a alta na Selic poderia ser superior à indicada no Relatório Focus por termos considerado uma alta inflacionária mais persistente, levando o IPCA para patamares superiores ao esperado pelo mercado.
Caso o consenso estivesse certo, o investidor que tivesse posicionado de acordo com ele teria percebido rentabilidade um pouco acima da Selic. Se estivéssemos certos (como a história provou), quem tivesse se posicionado contrário ao consenso teria ganhos muito acima da Selic projetada, permitindo o crescimento sustentável do portfólio em relação às rentabilidades mínimas praticadas pelo mercado (Selic efetiva).
- Promover diversificação.
- Implementar controle de risco.
- Não alocar todo o recurso em papéis de longo prazo (estabelecer um cronograma de liquidez: vencimentos escalonados no tempo).
- Não imobilizar grande parte dos ativos em papéis prefixados.
- Preferir papéis “IPCA + Prêmio” e pós-fixados.
Ponto importante, não somos profetas do acontecido: estudávamos as perspectivas de inflação desde a implementação dos estímulos em 2020 e citamos sobre possível alta dos juros e uma espiral inflacionária na Carta denominada Jabuticabas, publicada em 09/09/2020.
Acreditamos que existe apenas um tipo de controle absoluto: o que exercemos sobre a nossa individualidade e os nossos comportamentos. Podemos controlar (i) como respondemos aos outros e às situações que vivemos, (ii) as nossas emoções diante dos diferentes cenários que se sobrepõem ao longo do tempo, e (iii) os pensamentos e a forma como pensamos sobre diferentes assuntos. Assim, parte da nossa missão é ampliar a visão dos investidores que estão juntos conosco para que as decisões sejam as mais assertivas possíveis. Ganhos sustentáveis e superiores exigem pensamentos contraintuitivos.
Somos corresponsáveis pelo patrimônio dos nossos clientes e não o colocamos em risco de perdas irrecuperáveis caso as coisas não caminhem conforme o planejado – ou conforme “previsto”. Também não nos escondemos atrás de argumentos de autoridade ou pensamentos lógicos falaciosos para justificar alocações em desalinho. Disponibilizamos conhecimento para que os investidores façam parte da construção dos portfólios, mas não lhes terceirizamos culpa. Vemos a confiança dos investidores em nosso trabalho como um grande privilégio e temos ciência que todo privilégio exige responsabilidade.
Em 2021, cumprimos a nossa missão de preservar e construir patrimônios e temos certeza de que em 2022, com base nos nossos pilares (confiança, conhecimento e longo prazo), os resultados serão ainda mais consistentes.