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09
set / 20

Jabuticabas

por Daniel Perdomo

Na carta anterior, priorizei demonstrar a correlação existente entre o desempenho dos ativos de risco brasileiros e dos países globalmente mais relevantes que ancoraram as expectativas dos investidores locais e guiaram os resultados para o mês de julho, na ausência de dados consistentes sobre a economia brasileira. Adicionalmente, citei riscos, em sua maioria de natureza exógena, que poderiam impactar os ativos nacionais já no curto prazo.

Com o transcorrer da pandemia, dados nacionais foram divulgados e o ambiente político voltou a gerar ruídos. Assim, o Brasil voltou a ter uma dinâmica de precificação dos ativos com base nos seus problemas e soluções, se desvinculando das assimetrias internacionais, em parte.

A palavra risco, por ter sua ampla utilização em situações adversas, pode levar a um entendimento de que a minha visão para o mercado é pessimista, todavia é importante ressaltar que os riscos estão presentes em qualquer estágio do ciclo dos ativos, em períodos mais otimistas ou nem tanto.

A constante citação é fundamental para que o investidor tenha ciência das assimetrias já identificadas e ajuste seu portfólio, alinhando a relação risco x retorno ao seu perfil de investimentos.

Na carta de agosto, o foco será no Brasil e em nossas jabuticabas, já que os resultados dos nossos ativos para o mês não acompanharam os mercados internacionais, com proeminência para o mercado americano, que teve o melhor mês de agosto da história.

Estados Unidos

Contextualizando o exposto acima, sem ampliar o volume de informações, os índices acionários americanos fecharam o mês em alta (o quinto seguido). O S&P 500, principal referência, subiu +7.01% e, se avaliarmos período mais amplo, desde a eclosão da crise ocasionada pelo novo coronavírus, notaremos que todas as perdas ocasionadas pela pandemia foram eliminadas: o NASDAQ Composite Index subiu +77.6% desde 23 de março, o S&P 500 adicionou ganhos de +59.7% para o mesmo período, e o Dow Jones Industrial Average valorizou +56.1%.

Jabuticaba
A jabuticaba é uma fruta tradicional brasileira, nativa da Mata Atlântica. No contexto da nossa Carta Mensal, fazemos uso do sentido figurado, quando a expressão é usada para identificar algo tipicamente brasileiro, no significado que costuma ser atribuído ao economista e ex-Ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen.

Brasil

Diferentemente dos EUA, conforme explicitado acima, após quatro meses de altas sequenciais o Ibovespa registrou queda de -3.44%, tendo o dólar fechado em alta de +5.06%, cotado a R$ 5.48, em agosto. O principal fator que motivou a correção foi a fraqueza fiscal do país, leia-se dívida pública e sua trajetória de crescimento. Existem várias pautas comuns a outros países do mundo e outras jabuticabas em andamento que pressionam o Tesouro e a regra do Teto de Gastos, como (i) a prorrogação do auxílio emergencial, (ii) o programa Renda Brasil, (iii) o ímpeto perdulário do poder Executivo e Legislativo visando à reeleição, (iv) desonerações, (v) equipes do poder executivo brigando por maiores fatias do orçamento, (vi) expectativa de gastos com infraestrutura, entre outras questões.

Os fatores já consolidados que deterioraram a situação fiscal e as constantes ameaças (citadas acima) ao equilíbrio do orçamento público ampliaram, nos agentes econômicos, o sentimento de que investir no Brasil está mais arriscado. Essas questões, adicionadas aos juros básicos da economia que estão em patamares baixos (política monetária expansionista, por parte do Banco Central) potencializam a fragilidade do país.

E qual o principal desdobramento dessa fragilidade? Inflação.

O IPCA-15, índice oficial de inflação calculado pelo IBGE entre os dias 16/07 e 15/08, apresentou expansão de +0.23% em agosto. Embora ainda esteja em patamares historicamente baixos, apenas 2 dos 9 produtos e serviços que servem de base para os cálculos apresentaram deflação no mês, tendo havido expansão em todos os itens analisados – com exceção de “Transportes” e “Educação”:

Os principais gatilhos para estes resultados foram a precificação da disponibilidade de vacinas para os americanos, em até 2 meses, e o comunicado do FED ressaltando que, em caso de necessidade, implementará uma política monetária mais frouxa, com juros baixos por período prolongado, priorizando o mercado de trabalho em detrimento do controle da inflação.

FED
é o Federal Reserve, sistema de bancos centrais dos Estados Unidos.

IPCA-15 em agosto

Jul/20 Ago/20
alimentação e bebidas - 0.13% + 0.34%
habitação + 0.50% + 0.57%
artigos de residência + 0.68% + 0.88%
vestuário - 0.91% - 0.63%
transporte + 1.11% + 0.75%
saúde e cuidados pessoais + 0.40% + 0.75%
despesas pessoais - 0.23% + 0.03%
educação - 0.07% - 3.27%
comunicação + 0.46% + 0.86%

IPCA-15 anual

Jul/20 Ago/20
alimentação e bebidas + 3.90% + 7.96%
habitação + 3.67% + 1.06%
artigos de residência + 3.53% - 1.28%
vestuário + 0.36% - 1.35%
transporte + 1.87% - 1.58%
saúde e cuidados pessoais + 4.42% + 2.85%
despesas pessoais + 3.64% + 2.63%
educação + 4.88% + 1.29%
comunicação + 0.35% + 2.88%


Fonte: IBGE
 Elaboração: Trium Capital

Como o pior risco é aquele que não esperamos, uma espiral inflacionária se torna uma grande assimetria negativa nesse momento. Por quê?

Um aumento generalizado nos índices de preços levaria o Banco Central do Brasil a redirecionar sua política monetária expansionista, aumentando juros e prejudicando a recuperação da economia nacional, tendo em vista que o PIB apresentou queda recorde de -9.70% no segundo trimestre do ano, em relação ao primeiro, conforme dados divulgados pelo IBGE na primeira semana de setembro, levemente piores do que o esperado pelo mercado (-9.20%).

O resultado poderia ter sido pior, não fossem os impactos positivos da alta do dólar nas Exportações e o crescimento de setores com relevante peso no cálculo do Produto Interno Bruto: financeiro (peso de 5.90%), imobiliário (8.50%) e agropecuário (4.40%).

Nesse caso, precificação dos portfólios de investimentos seria abrupta, na magnitude do aumento dos juros.

Para exemplificar o provável (probabilidade ainda baixa) aumento consistente dos preços cito o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) que subiu 2.74% em agosto. O acumulado para 12 meses está em 13.02% e, para efeitos comparativos, para o mesmo mês no ano passado a alta foi de 0.67% e no acumulado para 12 meses o índice ficou em 4.95%. Conforme André Braz, Coordenador dos Índices de Preços da FGV, o índice de preços ao produtor respondeu pela aceleração do IGP-M. Entre as matérias-primas brutas, o destaque foi o minério de ferro, que subiu 10.82% e respondeu por quase 30% do resultado do IPA. Já entre os bens intermediários, a principal influência partiu dos materiais para a manufatura, cuja taxa passou de 0.84% para 2.66%. Por fim, entre os bens finais, vale destacar a aceleração da taxa dos alimentos in natura, a qual passou de -14.63% para -4.28%.

IPA
Índice de Preços ao Produtor Amplo, inicialmente batizado de Índice de Preços por Atacado. Ele contabiliza as variações de preços de produtos agropecuários e industriais nos estágios de comercialização anteriores ao consumo final, e compõe o cálculo do IGP-M.

Com a constante reabertura da economia, é essencial acompanharmos quando (e se) os produtores repassarão os preços para os consumidores finais.Parte dessa assimetria brasileira foi precificada na curva de juros no mês de agosto e os novos números inflacionários levaram o mercado a revisar para mais a projeção de IPCA para 2020: a XP Investimentos elevou a expectativa de -1.10% para +1.40% ao final do ano, mantida a SELIC no patamar atual. Nesse mesmo sentido, o último Relatório de Mercado “Focus” divulgado pelo Banco Central em agosto (ref. 28/08) projetou uma inflação 0.14 pontos percentuais acima do que se esperava no final de julho (ref. 31/07).

Resultados corporativos

Agosto foi mês de divulgação da maior parte dos resultados trimestrais (2T20) pelas empresas brasileira, sendo que grande parte dos demonstrativos apresentou resultados acima das expectativas do mercado (cerca de 30%) e da XP Investimentos (cerca de 54%). Como se esperava, foram sentidos maiores impactos no segundo trimestre em comparação com o primeiro, mostrando que foi acertada a avaliação de que os resultados do 1T20 ainda não expunham o verdadeiro golpe da pandemia nas companhias.

No Varejo, a adaptação das empresas ao quadro de isolamento social com investimentos em e-commerce levou ao destaque positivo do setor. A XP Investimentos reporta que 78% das empresas em seu universo de cobertura apresentaram resultados acima do que se esperava.

Outro destaque positivo foram as empresas do setor de commodities, embora em linha com o esperado pelo mercado, considerando a alta do dólar (+36.69% em 2020) e a recuperação da economia chinesa, frisada em nossa última Carta Mensal como a única entre as principais economias do mundo a reportar expansão no PIB no segundo trimestre.

Diversificação

Diversificação continua sendo a última instância para mitigação dos riscos citados, na ausência de um direcional concreto para a economia global. Importante perceber que diversificação pressupõe descorrelação de ativos. Não é inteligente investir, por exemplo, em diversos fundos de investimentos se todos possuem comportamento semelhante, tendo em vista os movimentos pendulares da economia. Tampouco, concentrar recursos em pouquíssimas estratégias.

Acompanhando os investidores e os portfólios, aqueles que possuem um nível de diversificação adequado ao perfil de investimentos e ao cenário econômico conseguiram rentabilidades consistentes em agosto, a despeito de todos os dados acima. O principal motivo é o controle de riscos.

Assim, ainda estamos em um ambiente com viés de alta, mas as forças opostas não merecem ser desprezadas.

IPA

Índice de Preços ao Produtor Amplo, inicialmente batizado de Índice de Preços por Atacado. Ele contabiliza as variações de preços de produtos agropecuários e industriais nos estágios de comercialização anteriores ao consumo final, e compõe o cálculo do IGP-M.

Disclaimer
É terminantemente proibida a utilização, acesso, cópia ou divulgação não autorizada das informações presentes nesta mensagem. O conteúdo acima possui caráter meramente informativo, não constituindo oferta de venda de produtos e não se tratando de indicação, recomendação ou aconselhamento em investimentos. Toda decisão de investimentos é de única e exclusiva responsabilidade do investidor. Recomendamos uma consulta a profissionais especializados para uma avaliação específica e personalizada antes de sua decisão sobre investimentos. O autor do conteúdo não se responsabiliza por perdas, custos, lucros cessantes ou danos (sejam eles diretos, indiretos ou incidentais) decorrentes de operações realizados com fundamento em informações aqui disponibilizadas. Em caso de dúvidas ou interesse em aprofundar sobre as especificidades de cada produto financeiro, o investidor deve consultar o assessor de investimentos, gerente ou consultor financeiro de sua confiança. A rentabilidade obtida no passado não representa garantia de rentabilidade futura. O investimento em ações é um investimento de risco e rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura.
09/09/2020
Jabuticabas
Por Daniel Perdomo

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