O título desta carta não poderia fazer referência a outro tema senão às eleições dos Estados Unidos. É inegável a importância do pleito americano para as economias dos outros países.
Todavia, iniciarei com as informações sobre o Brasil e evoluirei até os desdobramentos, de curto prazo, da vitória do candidato democrata (ainda não reconhecida por Donald Trump).
A política fiscal (trajetória dos gastos públicos e da dívida) e os conflitos políticos, que não endereçam o controle dos gastos, seguem como as principais incertezas do mercado nacional, impactando negativamente o sentimento dos investidores. Houve uma reaproximação do ministro Paulo Guedes com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, sinalizando que o Brasil viveria tempos de maior estabilidade política, contudo nenhuma ação concreta foi derivada deste movimento.
Com relação à economia, o Comitê de Política Monetária do Banco Central adotou um tom conservador na ata de sua última reunião, demonstrando certa preocupação com a elevação do risco fiscal e sinalizando que uma eventual redução da taxa Selic é muito improvável. Hoje, a Selic está em 2% a.a.
No comunicado, o COPOM ressaltou que a atividade econômica brasileira vem demonstrando uma recuperação desigual entre setores, semelhante à que ocorre com alguns pares internacionais. Prospectivamente, a incerteza sobre o ritmo de crescimento da economia permanece acima da usual, sobretudo para o período a partir do final deste ano, com o fim dos auxílios emergenciais. Enfim, conforme tratamos em outras cartas, o COPOM afinal reconheceu que as últimas leituras de inflação foram acima do esperado, elevando a projeção para os últimos meses de 2020. Contribuem para essa elevação a contínua alta nos preços dos alimentos e de bens industriais, consequência (i) da depreciação persistente do Real, (ii) da elevação de preço das commodities e (iii) dos programas de transferência de renda.
Apesar da pressão inflacionária mais forte no curto prazo, o Comitê̂ mantém o diagnóstico de que esse choque é temporário, mas monitora sua evolução com atenção. Valoriza a tese de que a ociosidade das cadeias produtivas e o fim da distribuição de recursos amenizarão a trajetória da inflação no médio prazo. Conforme o comunicado, as expectativas de inflação para 2020, 2021 e 2022 apuradas pela pesquisa Focus encontram-se em torno de 3.00%, 3.10% e 3.50%, respectivamente. Tivemos o maior IPCA de outubro dos últimos 18 anos, com aumento generalizado dos preços de 0.86%.
IPCA
Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo. Índice mensal calculado pelo IBGE que calcula a inflação das famílias com renda de 1 a 40 salários-mínimos nos municípios de Goiânia, Campo Grande, Rio Branco, São Luís e Aracaju e nas regiões metropolitanas das outras principais capitais (cerca de 30% da população).
Com relação ao mercado de renda variável, o Ibovespa fechou próximo da estabilidade (-0.70%) com queda de mais de 7%, na última semana, e de 18.80% em 2020. O mercado acionário começou outubro com desempenho positivo, porém ao longo do mês zerou os ganhos com (i) a escalada de casos de COVID-19 na Europa, (ii) a não aprovação do pacote de novos estímulos nos EUA (risco tratado na última Carta) e, também, devido (iii) aos ajustes nos portfólios (redução de risco) com a proximidade das eleições americanas.
Durante o mês de outubro, os países centrais europeus implementaram novas medidas de restrição de circulação de pessoas, tendo em vista o crescente número de casos de COVID-19. Assim, aumenta a possibilidade de nova redução da atividade econômica e, por conseguinte, de novos estímulos monetários e fiscais para remediar a queda da demanda ocasionada pela segunda onda.
Nos Estados Unidos, o foco em outubro foi a eleição e seus desdobramentos. Como no Brasil, após um bom início de mês, o S&P 500 teve a pior performance, na última semana, comparando com os últimos meses desde a eclosão da pandemia, com os agentes econômicos ajustando os portfólios para incerteza do resultado, já que as pesquisas perderam a credibilidade ao não demonstrarem a vitória de Trump nas eleições de 4 anos atrás. Retomando a Carta anterior, com a vitória de Joe Biden é possível que seja aprovado um vultoso pacote de gastos para estimular a economia, impactando positivamente os mercados mundiais. Todavia, para que a retomada seja consistente, a principal condição é a vacinação da população.
Na tarde de 07/11/2020, a mídia americana declarou a eleição de Joe Biden como o 46º presidente dos Estados Unidos. Mesmo com a demora na contagem dos votos em vários estados (que ainda não terminou), o êxito na Pensilvânia sacramentou a vitória do democrata, que conquistou 273 delegados, três a mais do que o mínimo necessário, derrotando o republicano Donald Trump.
Após a última semana de outubro que, conforme dito acima, foi de repercussão negativa e ajustes de portfólio, o mercado financeiro reagiu positivamente na primeira semana de novembro, véspera da eleição, com o S&P e a Nasdaq acumulando altas próximas à 6.50% e 8.25%. Parte desse otimismo foi devido não somente à eleição do democrata, mas a forma que se desenhava o equilíbrio do poder nos Estados Unidos.
Ao que tudo indica, Biden governará com o Congresso dividido – com o Senado Republicano e a Câmara Democrata. Essa configuração reduz a possibilidade de os Democratas aprovarem um plano de aumento excessivo de impostos, prejudicando o investimento e a lucratividade das empresas. Adicionalmente, o pacote de estímulos (que citei na Carta anterior e novamente nesta) poderá ser aprovado com a disponibilização de um volume maior do que o pacote proposto pelos Republicanos. A expectativa é que o montante a ser injetado na economia americana seja de US$ 2 trilhões, o que no curto prazo impactará positivamente os mercados de boa parte do mundo.
Dentro do pragmatismo que acredito ser necessário para discernir momentos de euforia e pessimismo da realidade dos fatos, não acredito que os nossos problemas tenham sido, minimamente, resolvidos. A vitória de Biden diminuiu um pouco a incerteza externa, contudo o balanço de riscos, para o Brasil, continua negativamente assimétrico com as questões fiscais, pressão inflacionária, segunda onda de COVID-19, queda dos lucros de vários setores da economia, desemprego elevado, efeitos do fim do auxílio emergencial e outros desafios impostos pela pandemia. Afirmo que a situação não é catastrófica, mas demanda sérios cuidados.
A taxa Selic, em sua baixa histórica, também contribui para a volatilidade dos mercados, já que os investidores, cientes dos efeitos colaterais das suas atitudes ou não, migram os recursos com crescente avidez para ativos de elevado grau de risco que possuem a possibilidade de entregarem maiores retornos. No entanto, esse movimento já elevou o preço de vários ativos e a injeção de risco nas carteiras pode não significar uma probabilidade de maior retorno, e sim uma possibilidade de maior perda.
Desta forma, os investidores que buscam preservação do patrimônio com correção real (acima da inflação), não possuem muitas alternativas nesse cenário, e revisitar algumas convicções será necessário:
Após algumas cartas escritas, é notório que a preocupação com o controle de riscos e a preservação patrimonial são os meus vieses, e quanto maior a incerteza do cenário maior a postura defensiva de minhas considerações. No entanto, esse comportamento não significa paralisia ou aversão total à volatilidade (o que reduziria o retorno médio de longo prazo dos portfólios), sendo somente a dose de cautela exigida para o momento que estamos vivendo.
Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo. Índice mensal calculado pelo IBGE que calcula a inflação das famílias com renda de 1 a 40 salários-mínimos nos municípios de Goiânia, Campo Grande, Rio Branco, São Luís e Aracaju e nas regiões metropolitanas das outras principais capitais (cerca de 30% da população).