Ao tratar de investimentos, muitas pessoas repetem o clichê de que investem pensando no longo prazo, sem refletir sobre o real significado da expressão. E o que seria longo prazo?
"O mercado de ações foi feito para transferir dinheiro dos impacientes para os pacientes."
-Warren Buffett
É comum pensar em longo prazo como aposentadoria. Isso seria em 20, 30 ou 40 anos? No meio do caminho, pretendo adquirir um imóvel ou bens de alto valor? A partir destes simples questionamentos, vemos que não existe resposta pronta.
Assim, toda construção de portfólio depende não apenas de conhecer o perfil de investidor de cada um, mas também da resposta à seguinte pergunta: qual o seu longo prazo individual? Jovens começando a vida profissional, pessoas com carreiras ascendentes ou quem está próximo de se aposentar têm “longos prazos” completamente diferentes.
O ponto de partida mais comum é tratar da idade desejável de aposentadoria, verificar os gastos mensais ou anuais projetados, os aportes periódicos, a taxa de retorno alvo de acordo com perfil do investidor e calcular um valor futuro, considerando a perpetuidade do recurso ou retiradas mensais. Porém, essa ideia tradicional deve ser enriquecida, principalmente em função das mudanças econômicas ocorridas nos últimos anos. Afinal, saímos de uma SELIC de 14,25% a.a em Out/2016 para 3,75% a.a em Mar/2020. Ou seja, não podemos mais planejar o velho longo prazo conservador, com taxa mensal de 1% a.m em renda fixa “sem risco”.
Um ponto interessante para tratar do longo prazo no Brasil é relacioná-lo com ciclos políticos. Independentemente da visão ideológica de cada um, seja ela liberal ou intervencionista, temos apenas uma certeza em relação ao cenário doméstico: em ano de eleição presidencial, a volatilidade do mercado tende a aumentar. Com as incertezas geradas pelo futuro governo, surgem dúvidas não apenas sobre a política econômica, mas sobre todos os aspectos governamentais: qual será a política externa? Haverá expansão ou enxugamento da máquina pública? As atuais políticas sociais serão mantidas? Todas incertezas geram desconfianças nos investidores, que, avessos ao risco, tendem a iniciar corrida por ativos menos voláteis. Porém, com diversificação e foco no longo prazo individual, é possível mitigar estes ruídos de curto prazo.
No longo prazo, os juros compostos trabalham em favor do investidor, tratando-se de uma das armas mais poderosas na construção do patrimônio. Vamos supor que um investidor de perfil agressivo, por exemplo, busque uma rentabilidade média mensal de 1,00% a.m, por meio de investimentos em bolsa de valores. Com um aporte inicial de R$10.000,00, teria, ao final de 10 anos, a quantia aproximada de R$33.000,00. Entretanto, após 30 anos, o retorno esperado seria próximo de R$360.000,00. Esse exemplo numérico mostra como o ganho cresce em escala bem maior que o prazo, na medida em que o tempo passa.
Ainda, é importante que o investidor tenha consistência no longo prazo, realizando seus aportes com disciplinas e rebalanceamento de carteira conforme necessário. O mercado financeiro é cíclico e crises são esperadas. Assim, o investidor com visão de longo prazo pode aproveitar momentos de pânico e realocar parte da reserva de liquidez para ativos com grande desconto. Nos momentos de grande volatilidade, é comum que cotas de sólidos fundos imobiliários e ações de empresas com balanços fortes (lucros crescentes e recorrentes) sejam negociados abaixo do valor justo, por irracionalidade do mercado.
Em momentos como a Crise do Subprime (2008) e o chamado “Joesley Day” (2017), para trazer exemplo global e doméstico, ótimas oportunidades de compra surgiram, tendo o mercado experimentado forte alta, quando verificamos janela de 12 meses após os eventos. Nesse tópico, vale destacar que é impossível acertar o fundo do poço, para realizar investimento no ponto ótimo. Entretanto, no longo prazo, variações de centavos no preço de um papel são insignificantes frente ao potencial de valorização.
A situação retratada pode ser vista de outro ângulo. E se eu investir na véspera do estouro de uma bolha? Antes da crise de 2008, o índice S&P 500 atingiu seu recorde histórico em outubro de 2007, iniciando-se período de Bear Market que durou até 2009. Cerca de quatro anos depois, em março de 2013, o mercado havia se recuperado, tendo o índice batido o recorde anterior, em movimento de alta que durou até 2020.
Neste ponto, ressalto a importância do conhecimento, disciplina e diversificação, sempre em conjunto com visão de longo prazo, já que dificilmente um investidor bem assessorado teria simplesmente aguardado a recuperação dos seus investimentos, sem ter aproveitado oportunidades surgidas em uma crise.
E, dando um passo atrás, nos fundamentos da construção de um portfólio de longo prazo: em uma carteira diversificada em várias classes de ativos (dentro do perfil de risco de cada um), com realização de aportes consistentes e com ajustes táticos em momentos oportunos, os impactos de uma crise global podem ser atenuados, potencializando os ganhos durante período de recuperação e nos anos subsequentes.