Tendo em vista todas as outras Cartas Mensais escritas e a nossa filosofia de investimentos, já é notória a nossa predileção por investir visando o longo prazo (o que denominamos alocação estratégica) com possibilidade de ajustes táticos no portfólio ao longo do tempo.
Mas como são definidas as janelas para estes ajustes táticos? A partir dos ciclos econômicos.
Remetendo à Carta de dezembro de 2020, denominada Ciclos ↗, falamos um pouco sobre como os estágios dos ciclos econômicos afetam ou dão origem aos vieses comportamentais dos investidores, tema a ser observado com intuito de diminuir a margem de erro em nossos processos decisórios. Escrevemos também que os mercados possuem tendência histórica a um comportamento cíclico em que períodos de recessão econômica (restrição financeira) são sucedidos por períodos de crescimento econômico (expansão financeira), sendo o inverso também verdadeiro.
Para a finalidade desta Carta, o ciclo econômico poderá ser dividido em quatro fases: reflação, recuperação, superaquecimento e estagflação.
A reflação é a primeira fase da recuperação econômica após um período de contração. É o período em que os governos e bancos centrais utilizam das políticas fiscal e monetária para expandir a produção, estimular gastos dos agentes econômicos e conter os efeitos de uma deflação (queda generalizada no nível de preços) após um período de grande incerteza ou recessão. Os principais instrumentos dessas políticas, para esses fins, são a promoção de mais gastos governamentais e a redução de impostos (política fiscal), bem como o aumento da oferta de moeda, principalmente através da diminuição das taxas básicas de juros (política monetária).
A recuperação é a fase do ciclo econômico caracterizada por um período sustentado de melhoria da atividade empresarial (alta dos lucros corporativos), crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e queda do nível de desemprego.
No superaquecimento, por sua vez, vê-se o inverso da reflação: a economia já vivencia um longo período de forte crescimento econômico que, por conseguinte, levou a altos níveis de inflação. Nesse estágio do ciclo, os governos e Bancos Centrais, usualmente, aumentam os impostos e as taxas básicas de juros visando a reduzir o volume de gastos e empréstimos para arrefecer o aumento consistente dos preços.
Já a estagflação é marcada por baixo crescimento econômico e desemprego relativamente alto, acompanhados por aumento generalizado do nível de preços (inflação). É uma situação não convencional e desafiadora para os formuladores de políticas econômicas, já que ações voltadas para a contenção dos indicadores inflacionários poderão aprofundar o desemprego e reduzir ainda mais o crescimento da economia.
Assim, tendo em vista o exposto acima, é de se esperar que as diferentes classes de ativos apresentem desempenhos também distintos nas diferentes fases do ciclo econômico. Exemplos:
Como quase tudo em nossas vidas, as informações acima não são escritas em pedra e outros fatores devem ser considerados para o correto diagnóstico dos estágios de um ciclo e quais ativos poderão se beneficiar. Exemplificando, ao contrário das crises financeiras, o colapso gerado pelo coronavírus foi sucedido por restrições de circulação de pessoas fazendo com que o setor de tecnologia (resiliente ao distanciamento social) fosse favorecido mesmo não sendo um período de forte crescimento (pelo contrário).
Aplicando ao cenário atual, através dos dados e indicadores financeiros, a economia mundial estaria em um momento de transição do período de reflação para recuperação.
Como tratado na Carta denominada Jabuticabas ↗, em agosto de 2020, o Brasil possui algumas idiossincrasias que devem ser consideradas. Contudo, o direcional mais forte é que estamos, também, iniciando o ciclo de recuperação (ainda que fraca), mas não podemos negar que o nível de desemprego e a inflação nos demandam constante vigilância para não entrarmos em um período de estagflação – com consequências sobre quais ajustes táticos devem ser realizados.
Idiossincrasias
peculiaridades.
Conhecer os ciclos é importante, todavia antecipá-los é ainda mais importante. A maioria dos investidores se comporta de maneira pró-cíclica: quando os indicadores econômicos, os lucros das empresas e os preços dos ativos aumentam, as pessoas ficam cada vez mais otimistas e compram em altas cíclicas.
Da mesma forma, o pessimismo aumenta quando o inverso é verdadeiro, fazendo com que os investidores vendam (e certamente não comprem) em baixas cíclicas. É o que se identifica, por exemplo, no conhecido viés comportamental do Efeito Manada. No entanto, o racional seria comprar na baixa (bons ativos por preços menores), vender na alta (acima do preço considerado justo para cada ativo) ou não vender os ativos se as perspectivas continuarem positivas.
Efeito Manada
momentos de pânico ou euforia no mercado interferem na tomada de decisão do investidor, fazendo-o seguir a conduta de outros investidores ignorando informações específicas que, caso fossem observadas, poderiam desaconselhar a escolha feita.
Agir de forma anticíclica é ter ciência que nem sempre a decisão de investir ou não investir em determinado ativo parecerá racional.
“It ain’t what you don’t know that gets you into trouble. It’s what you know for sure that just ain’t so”