Na já tradicional Carta Mensal costumo me alongar (um pouco) em um ou dois temas que considero relevantes para a alocação de ativos. Contudo, para este mês, são tantas as matérias que impactaram os mercados que o conteúdo ficará semelhante a um quebra-cabeça, com informações que isoladamente podem não significar tanto, mas que em conjunto formam um cenário.
A autoria desta frase icônica, de tão incerto ser nosso passado, já foi atribuída a Roberto Campos¹, economista, diplomata e político; a Pedro Malan², ex-Ministro da Fazenda e ex-Presidente do Banco Central; e Gustavo Loyola³, também ex-Presidente do Banco Central.
Iniciamos o mês de março com uma decisão do Supremo Tribunal Federal que desencadeou uma elevação da (já alta) incerteza no Brasil. Sem entrar no mérito do julgamento e nos desdobramentos políticos da decisão, o retorno da elegibilidade do ex-presidente Lula foi, também, extrapolado para o Direito dos Contratos. A sinalização dada aos investidores nacionais e estrangeiros é de que mudamos as regras, arcabouço jurídico que confere estabilidade aos negócios concretizados no país, com o jogo em andamento, tirando parte da pouca previsibilidade que os agentes econômicos possuem.
Roberto Campos
Em ambientes como o descrito, temos fuga de capitais e queda no investimento direto na economia impactando a, tão esperada, retomada do nível de empregos e a sustentabilidade do crescimento brasileiro no longo prazo.
Pedro Malan
Para quem acompanha as Cartas Mensais, na edição de agosto de 2020 explicitei qual seria o principal efeito dos juros historicamente baixos, do ímpeto perdulário dos poderes da República, das desonerações em série e do orçamento público desorganizado: a inflação.
Ainda naquele momento (quando a inflação era um risco parcialmente oculto), recebi alguns valorosos comentários sobre o tema dizendo que o aumento de preços aos consumidores não seria consistente e que desta vez seria diferente. Infelizmente, não foi o que ocorreu.
O IPCA-15 de março de 2021 subiu 0.93%, acumulando 5.52% nos últimos 12 meses, número que está acima do teto da meta para este ano, que é de 5.25%. Assim, com as questões fiscais não resolvidas e a inflação ganhando tração, o Copom decidiu aumentar a Selic em 0.75% para 2.75%. Em sua ata, o Comitê já deixou sinalizado um novo aumento de 0.75% na próxima reunião. A elevação foi acima do consenso de mercado com intuito de ancorar rapidamente as expectativas de longo prazo.
Para este ano, a inflação deve fechar próximo ou acima do teto da meta, e ter considerável percentual do portfólio em ativos que proporcionem ganhos reais (acima da inflação) foi e continuará sendo essencial para o equilíbrio das carteiras.
Gustavo Loyola
O mês de março é importante para o mercado, já que ocorre a divulgação dos resultados trimestrais das empresas, associados a outros indicadores econômicos relevantes. Em resumo, os países considerados desenvolvidos (notadamente os EUA e o Reino Unido) e alguns países asiáticos estão avançando na vacinação contra a COVID-19 e divulgaram PMIs acima do consenso, sinalizando um bom ritmo de retomada das atividades e recuperação econômica. Adicionalmente, tivemos a aprovação do pacote de gastos nos Estados Unidos (US$ 1,84 trilhões) e o anúncio do pacote de infraestrutura (US$ 2,2 trilhões) a serem financiados com aumentos de impostos sobre as empresas. O risco, no caso americano (que impacta o mundo inteiro), é o pleno emprego ser atingido rapidamente e os juros subirem.
PMI
o Purchasing Manager's Index é um indicador mensal que mede a atividade econômica de um país.
Já o Brasil vive o pior momento da epidemia, resultando no aumento das restrições (necessárias) de circulação e desaceleração da atividade econômica. Estamos vivenciando um contraciclo em relação ao restante do planeta e, como exemplo, tivemos queda de 0.7% na produção industrial no mês de fevereiro de 2021. Se a vacinação ocorrer conforme o anunciado pelo Governo Federal, entre maio e junho poderemos ter um alívio na tensa situação que presenciamos.
Adicionalmente (como já citado acima), enfrentamos problemas quanto à aprovação do orçamento, que teve gastos com emendas parlamentares majorados, impactando a execução das despesas obrigatórias – ou, em outras palavras, inviabilizando o implemento do orçamento. Temos duas prováveis soluções para este imbróglio: vetos presidenciais ou aprovação de um projeto de lei com efeitos modificativos, superveniente à lei orçamentária.
Assim, mais uma vez, o ímpeto perdulário do Congresso e o constante flerte com o estouro do teto de gastos impactam a estabilidade da economia brasileira.
A falta de controle da pandemia, no Brasil, impede um processo de retomada consistente do crescimento econômico e, ao que tudo indica, só será superada com a ampliação da vacinação. Países que estão mais avançados na imunização já demonstram sinais de forte crescimento. Nesse sentido, diversificar os investimentos geograficamente continua a ser uma pauta a ser discutida na construção das carteiras para que obtenhamos os retornos esperados dentro de cada perfil de investidor.
Com a intensificação da vacinação, os ativos de risco brasileiros podem ter uma valorização adiante. Contudo, não é possível corrigirmos, em curtíssimo prazo (talvez sequer em longo prazo) a instabilidade gerada pelas nossas principais instituições, já que são partes fundamentais da democracia que por si é dinâmica e necessariamente instável.
O que precisamos desenvolver é a habilidade de filtrar o que é ruído de curto prazo e o que é mudança estrutural. A trajetória da dívida pública, a se tornar um problema estrutural, já interfere na alocação estratégica dos portfólios, e, em resumo: quanto mais próximos da insustentabilidade fiscal, menor será o crescimento econômico, maiores serão os juros, maior será a inflação, mais desvalorizado o real e menores serão os preços das ações.
Assim, os portfólios devem conter posições liquidas, posições em moeda forte, investimentos alternativos, classes internacionais e ativos que permitam ganhos reais (acima da inflação). A dosimetria de cada classe e ativos a serem escolhidos e o momento de entrada dependerá do perfil de cada investidor.
“Investir com sucesso é sobre gerenciar riscos, não evitá-los”
Benjamin Graham