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ago / 20

Sinais

por Daniel Perdomo

Desde o início da crise sanitária gerada pela propagação do coronavírus por todos os continentes, a pandemia é a principal variável dos modelos econômicos e, assim como na nossa última Carta Mensal, não poderíamos omitir os dados demonstrando seus efeitos sobre as economias dos países. Contudo, o agravamento da crise da COVID-19, principalmente nos Estados Unidos, não foi suficiente para direcionar os mercados financeiros globais para um terreno, fortemente, negativo.

Nesse momento, talvez tenhamos mais dúvidas do que certezas, e entendermos o comportamento do mercado dentro do mês de julho é de considerável importância para sermos assertivos na escolha das perguntas corretas que nos levarão às respostas essenciais para este mês de agosto.

Internacional

O mês iniciou com mais de 40 estados americanos divulgando aumento nos números de casos do novo coronavírus, sendo que a máxima diária, de 77.255 casos, foi divulgada em 16 de julho pela Universidade Johns Hopkins.

Com a expansão da contaminação, de acordo com os números divulgados pela Universidade de Michigan, o índice de confiança do consumidor norte-americano retrocedeu 7.2%, após duas altas consecutivas. Já o índice de expectativas do consumidor caiu 8.9%, demonstrando que os consumidores da América não acreditam em um rápido término para a pandemia. Parte deste sentimento pode ser explicado pela contração de -32.9% no Produto Interno Bruno (PIB) anualizado, referente ao 2º trimestre: a maior da história.

O Produto Interno Bruto (PIB)

é o resultado da soma de todos os bens e serviços produzidos em um país em um determinado período. Por ser um indicador de quanto a economia produziu em um intervalo temporal, o PIB demonstra se houve contração, manutenção ou expansão da atividade econômica em relação a períodos anteriores. O departamento de estatísticas do governo dos Estados Unidos divulga o desempenho do PIB através da taxa anualizada.

Assim, o número divulgado é equivalente à variação do PIB caso a economia americana preservasse o mesmo ritmo de crescimento ou decrescimento divulgado ao longo de doze meses. Comparando as principais economias globais, a China foi a única a divulgar dados positivos do PIB para o segundo trimestre deste ano, +11.5% (em relação ao trimestre anterior), sendo uma alta de +3.2% em termos anualizados. Em 2020, a economia chinesa acumula queda de apenas -1.6%. Para o caso chinês, a recuperação da economia foi no formato “V”.

No continente europeu, as contrações nos PIBs de países de grande relevância, como a Alemanha (-10.1% no segundo trimestre) e Espanha (-18.5% no segundo trimestre), superaram as expectativas de mercado. França (-13.8%) e Itália (-12.4%) decresceram menos do que as previsões dos agentes econômicos.

PMI

Em tradução literal, o PMI(Purchasing Managers Index) é o Índice Gerente de Compras. É um indicador que mede o nível de atividade dos gerentes de compras na indústria e é composto por fatores como novos pedidos, produção, níveis de estoque, entregas por fornecedores, entre outros. Valores superiores a 50 indicam expansão da produção na indústria, enquanto valores inferiores a 50 indicam contração. É, portanto, um indicador mensal da saúde das cadeias industriais.

Apesar das informações negativas citadas acima (com exceção dos números chineses), que refletem o passado, dados recentes de atividade, como o índice PMIde países com parte da economia aberta, indicam que a tendência da contração econômica será de menor magnitude do que o esperado por analistas de mercado no início da pandemia.

Julho Junho
PMI Industrial zona do Euro 51.80 47.40
PMI Industrial Alemanha 51.00 45.20
PMI Industrial EUA 54.20 52.60
PMI Industrial China 52.80 51.20
PMI Industrial Brasil 58.20 5160

Para validar parte da expansão dos PMIs e do fechamento positivo do índice S&P 500 em 3.271,12 pontos (alta de +5.5% no mês e de +1.2% em 2020), o mês de julho foi marcado, também, pelo início da temporada de divulgação dos resultados do 2º trimestre das empresas americanas. Até o dia 30/07/2020, mais de 50% das empresas do principal índice de ações dos Estados Unidos, o S&P 500, haviam divulgado seus resultados e, de acordo com os dados da empresa Refinitiv IBES, mais de 80% dos resultados das companhias superaram as expectativas de lucros dos principais analistas, com grande destaque para as empresas de tecnologia, tais como: Amazon, Google, Facebook, Microsoft… Todavia, resultados ainda muito abaixo do período pré-crise.Não podemos deixar de citar também a atuação do Federal Reserve na economia americana, com a contínua e massiva injeção de liquidez. Ainda em julho, foi iniciada a tratativa entre o governo Trump e o Congresso para ampliação dos auxílios emergenciais em mais US$ 1 trilhão. Este fator, afirmativamente, contribuiu para o forte resultado da bolsa americana e, por conseguinte, da bolsa brasileira, devido ao alto grau de correlação que percebemos atualmente.

Brasil

O Brasil teve, em julho, o mês com o maior número de óbitos confirmados pelo coronavírus. Nesse momento, não poderíamos deixar de manifestar a nossa tristeza pelas 32.912 pessoas que não estarão mais no convívio de suas famílias. São mais de 2.800.000 casos confirmados.

Durante o mês, o mercado financeiro brasileiro foi guiado por notícias internacionais, especificamente pelos movimentos do mercado americano (conforme demonstramos acima), pelos movimentos internos do Ministério da Economia, como a entrega do texto da reforma tributária, e pelos dados positivos do CAGED e do PMI.

CAGED
é o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, que registra as admissões e dispensa de empregados sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

O fechamento dos dados de junho do CAGED foi, de fato, mais animador. O número de postos de trabalho formais (com carteira assinada) decresceu 10.984 em junho, muito aquém dos 350.303 empregos perdidos em maio.
Julho Junho
PMI Industrial Brasil 58.20 51.60

 

O PMI industrial de julho subiu para 58.20, ante 51.60 em junho. A confiança da indústria de transformação também cresceu, +15.7%. Esses dados demonstram certa melhora no ambiente industrial. Todavia, essa melhora só será consistente no médio prazo se houver maior abertura da economia e continuidade do auxílio emergencial. Por isso, é importante monitorarmos as curvas de contágio e os movimentos políticos quanto ao pagamento de novas parcelas de recursos àqueles que necessitam.Desta forma, (i) a alta liquidez nos mercados globais, (ii) os resultados corporativos americanos acima do esperado, (iii) a expectativa da reforma tributária e (iv) os números não tão negativos de emprego e produção industrial brasileiros contribuíram para queda na volatilidade em julho, em detrimento do aumento no número de casos de coronavírus e de um possível atraso na reabertura da economia americana. Nesse sentido, o Ibovespa encerrou o mês com alta de +8.27% aos 102.912 pontos. Somente para referência, o CDI fechou em 0.19% e a nova poupança em 0.13%.

E para agosto, o que esperar?

Apesar dos sinais mistos acima descritos, com predominância das notícias positivas dentro do mês de julho, não será possível afirmarmos que agosto será um mês de bons retornos. Ainda percebemos muitos riscos, de relevante magnitude, presentes na dinâmica econômica de curto prazo.

Preços dos ativos: mesmo com a grande liquidez disponível, é possível uma retração das ações que mais se valorizaram no período pós crise.

Auxílios emergenciais: a divulgação de uma interrupção abrupta dos programas de transferência de renda poderá gerar uma correção negativa dos indicadores econômicos.

Defaults de empresas: com a ausência de uma vacina e a continuidade da pandemia, a queda de lucratividade e o agravamento do caixa das empresas podem levar a decretação de falências, impactando o sentimento dos agentes econômicos.

EUA × China: as tratativas comerciais não avançaram nos últimos meses e vemos uma escalada das tensões entre os comandantes centrais dos países.

Eleições americanas: a condução da pandemia por parte do governo Trump, somada aos protestos pela morte de George Floyd, fortaleceram o opositor Joe Biden na disputa.

Assim, em um cenário de grande incerteza, mesmo considerando a divulgação de dados mais positivos que outrora, a diversificação nas alocações é de extrema importância. Mesmo com os riscos acima descritos, não é eficiente para as carteiras perder a rentabilidade prospectiva de determinados ativos. Assim, posições de maior volatilidade, normalmente através de renda variável, devem ser ancoradas por ativos de menor volatilidade como renda fixa bancária e corporativa de elevado rating, desde que os retornos estejam adequados ao cenário e ao risco de cada instituição.

Com relação aos fundos de investimentos, é importante avaliar o comportamento entre as estratégias e adicionar elementos distintos para reduzir a correlação.

Com os consecutivos aumentos dos índices mundiais, a escolha de países e ações e setores específicos adquire mais relevância.

Proteções do portfólio com ativos reais e instrumentos derivativos devem ser mantidas.

E as perguntas? Para quais procuramos respostas?

Para esta parte da Carta, recorri ao memorando “The anatomy of a Rally” (18/06/2020), de Howard Marks, gestor da Oaktree Capital. Ele discorre que não é possível afirmar se os mercados estão com direcionais apropriados, se estão irracionais ou mesmo se estão altos ou baixos, mas que há algumas perguntas a serem feitas:

  1. “Os investidores estão avaliando os aspectos positivos e negativos sem vieses emocionais?”
  2. “Qual é a probabilidade de os fatores positivos que impulsionam o mercado se mostrarem válidos (ou que os negativos ganharão força)?”
  3. “O mercado está sendo elevado pelo otimismo desenfreado?”
  4. “O otimismo está fazendo com que os investidores ignorem contra-argumentos válidos”?

Aqui, acrescento mais uma:

A alta liquidez presente nos mercados é uma variável de curto, médio ou longo prazo?

Para finalizar, compartilharei a conclusão de Howard Marks, presente no mesmo memorando:

“Perguntas como essas podem não nos dizer se a alta foi razoável e se os preços atuais dos ativos são justificados. Mas elas podem ajudar nessa avaliação. Elas me levam a concluir que o poderoso rally que vimos foi construído com otimismo; incorporou expectativas positivas e negligenciou as potenciais expectativas negativas; e foi impulsionado em grande parte pelas injeções de liquidez do Fed e pelos pagamentos de estímulos do Tesouro, que os investidores supõem que serão uma ponte fundamental para a recuperação e que estarão livres de consequências de segunda ordem altamente negativas”.

“Em outras palavras, a perspectiva fundamental pode ser positiva, mas com os preços de títulos listados onde estão, as chances não são favoráveis ​​aos investidores.”

Howard Marks
11/08/2020
Sinais
Por Daniel Perdomo

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