Desde o início da crise sanitária gerada pela propagação do coronavírus por todos os continentes, a pandemia é a principal variável dos modelos econômicos e, assim como na nossa última Carta Mensal, não poderíamos omitir os dados demonstrando seus efeitos sobre as economias dos países. Contudo, o agravamento da crise da COVID-19, principalmente nos Estados Unidos, não foi suficiente para direcionar os mercados financeiros globais para um terreno, fortemente, negativo.
O mês iniciou com mais de 40 estados americanos divulgando aumento nos números de casos do novo coronavírus, sendo que a máxima diária, de 77.255 casos, foi divulgada em 16 de julho pela Universidade Johns Hopkins.
é o resultado da soma de todos os bens e serviços produzidos em um país em um determinado período. Por ser um indicador de quanto a economia produziu em um intervalo temporal, o PIB demonstra se houve contração, manutenção ou expansão da atividade econômica em relação a períodos anteriores. O departamento de estatísticas do governo dos Estados Unidos divulga o desempenho do PIB através da taxa anualizada.
Assim, o número divulgado é equivalente à variação do PIB caso a economia americana preservasse o mesmo ritmo de crescimento ou decrescimento divulgado ao longo de doze meses. Comparando as principais economias globais, a China foi a única a divulgar dados positivos do PIB para o segundo trimestre deste ano, +11.5% (em relação ao trimestre anterior), sendo uma alta de +3.2% em termos anualizados. Em 2020, a economia chinesa acumula queda de apenas -1.6%. Para o caso chinês, a recuperação da economia foi no formato “V”.
No continente europeu, as contrações nos PIBs de países de grande relevância, como a Alemanha (-10.1% no segundo trimestre) e Espanha (-18.5% no segundo trimestre), superaram as expectativas de mercado. França (-13.8%) e Itália (-12.4%) decresceram menos do que as previsões dos agentes econômicos.
Em tradução literal, o PMI(Purchasing Managers Index) é o Índice Gerente de Compras. É um indicador que mede o nível de atividade dos gerentes de compras na indústria e é composto por fatores como novos pedidos, produção, níveis de estoque, entregas por fornecedores, entre outros. Valores superiores a 50 indicam expansão da produção na indústria, enquanto valores inferiores a 50 indicam contração. É, portanto, um indicador mensal da saúde das cadeias industriais.
| Julho | Junho | |
|---|---|---|
| PMI Industrial zona do Euro | 51.80 | 47.40 |
| PMI Industrial Alemanha | 51.00 | 45.20 |
| PMI Industrial EUA | 54.20 | 52.60 |
| PMI Industrial China | 52.80 | 51.20 |
| PMI Industrial Brasil | 58.20 | 5160 |
O Brasil teve, em julho, o mês com o maior número de óbitos confirmados pelo coronavírus. Nesse momento, não poderíamos deixar de manifestar a nossa tristeza pelas 32.912 pessoas que não estarão mais no convívio de suas famílias. São mais de 2.800.000 casos confirmados.
Durante o mês, o mercado financeiro brasileiro foi guiado por notícias internacionais, especificamente pelos movimentos do mercado americano (conforme demonstramos acima), pelos movimentos internos do Ministério da Economia, como a entrega do texto da reforma tributária, e pelos dados positivos do CAGED e do PMI.
CAGED
é o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, que registra as admissões e dispensa de empregados sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
| Julho | Junho | |
|---|---|---|
| PMI Industrial Brasil | 58.20 | 51.60 |
Apesar dos sinais mistos acima descritos, com predominância das notícias positivas dentro do mês de julho, não será possível afirmarmos que agosto será um mês de bons retornos. Ainda percebemos muitos riscos, de relevante magnitude, presentes na dinâmica econômica de curto prazo.
Preços dos ativos: mesmo com a grande liquidez disponível, é possível uma retração das ações que mais se valorizaram no período pós crise.
Auxílios emergenciais: a divulgação de uma interrupção abrupta dos programas de transferência de renda poderá gerar uma correção negativa dos indicadores econômicos.
Defaults de empresas: com a ausência de uma vacina e a continuidade da pandemia, a queda de lucratividade e o agravamento do caixa das empresas podem levar a decretação de falências, impactando o sentimento dos agentes econômicos.
EUA × China: as tratativas comerciais não avançaram nos últimos meses e vemos uma escalada das tensões entre os comandantes centrais dos países.
Eleições americanas: a condução da pandemia por parte do governo Trump, somada aos protestos pela morte de George Floyd, fortaleceram o opositor Joe Biden na disputa.
Assim, em um cenário de grande incerteza, mesmo considerando a divulgação de dados mais positivos que outrora, a diversificação nas alocações é de extrema importância. Mesmo com os riscos acima descritos, não é eficiente para as carteiras perder a rentabilidade prospectiva de determinados ativos. Assim, posições de maior volatilidade, normalmente através de renda variável, devem ser ancoradas por ativos de menor volatilidade como renda fixa bancária e corporativa de elevado rating, desde que os retornos estejam adequados ao cenário e ao risco de cada instituição.
Com relação aos fundos de investimentos, é importante avaliar o comportamento entre as estratégias e adicionar elementos distintos para reduzir a correlação.
Com os consecutivos aumentos dos índices mundiais, a escolha de países e ações e setores específicos adquire mais relevância.
Proteções do portfólio com ativos reais e instrumentos derivativos devem ser mantidas.
Para esta parte da Carta, recorri ao memorando “The anatomy of a Rally” (18/06/2020), de Howard Marks, gestor da Oaktree Capital. Ele discorre que não é possível afirmar se os mercados estão com direcionais apropriados, se estão irracionais ou mesmo se estão altos ou baixos, mas que há algumas perguntas a serem feitas:
Aqui, acrescento mais uma:
A alta liquidez presente nos mercados é uma variável de curto, médio ou longo prazo?
Para finalizar, compartilharei a conclusão de Howard Marks, presente no mesmo memorando:
“Perguntas como essas podem não nos dizer se a alta foi razoável e se os preços atuais dos ativos são justificados. Mas elas podem ajudar nessa avaliação. Elas me levam a concluir que o poderoso rally que vimos foi construído com otimismo; incorporou expectativas positivas e negligenciou as potenciais expectativas negativas; e foi impulsionado em grande parte pelas injeções de liquidez do Fed e pelos pagamentos de estímulos do Tesouro, que os investidores supõem que serão uma ponte fundamental para a recuperação e que estarão livres de consequências de segunda ordem altamente negativas”.
“Em outras palavras, a perspectiva fundamental pode ser positiva, mas com os preços de títulos listados onde estão, as chances não são favoráveis aos investidores.”